Sinto saudade de gente com memória
Gente que tem história pra contar
Sempre viajei em histórias alheias
Até viajei na gramática
Quando era o Lacerda quem contava
Das coisas dos livros
E das coisas do Seminário
E de ter saído de lá
Daquelas histórias
De um mundo diferente
Em que o poder
Estava escondido nos livros
Por trás das paredes dos monastérios
Dentro das paredes da escola
Estórias da História de Sônia Torres
E do espírito crítico do Amir Resende
E de Miss Penha e seu inglês
Que aterrorizava a gente
Com os verbos regulares
As molequinhas do Jacinto
E aqueles olhos do "ti" Toninho
E sua amável biologia
Tempos de ver Maria
A dona da biblioteca
Se era da coleção Vagalume
Se era de Ágatha Christie
Ou se era de Jorge Amado
Tudo bem registrado
Tempos de subir o morro
Do Estadual a pé
E chegar mais cedo
Pra jogar peteca
Ou vôlei de dupla
Com bolinha de papel
Subir e descer as arquibancadas
Pra dona Sônia
Deixar a gente jogar vôlei
Tentar o jornada nas estrelas
E deixar o outro time doido
Conseguir pegar as cortadas
Dos marmanjos do time masculino
As merendeiras da cantina
E seu temperos de ouro
Não eram só os professores
Foi toda uma constelação
Marcou a vida da gente.
Tempo em que ser diferente
Se espírita ou crente
Tinha que acordar mais cedo
Pra aula de religião
Que era como deveria ser
Conhecer um pouco mais a Bíblia
E a gente estudava Moral e Cívica
Com os belos olhos do Zé Aílton
Pessoa fina e que parecia meu pai.
Era um tempo diferente
O tempo de uma outra escola
Ou será que era o tempo
Que vamos sempre enxergar com o brilho
Que se enxerga na aurora?
Katia Provette
Nenhum comentário:
Postar um comentário